A leitura dos espetáculos da 1ª Mostra de Dança de Joinville contou com a participação de alunos do Curso de Jornalismo do Bom Jesus / Ielusc que realizaram um estudo crítico sobre as apresentações, com coordenação e edição do professor Gleber Pieniz.
Leia o texto que a futura jornalista Maila Klegien escreveu sobre o espetáculo da Escola Bolshoi, Do que nós somos feitos?.
Carbono, Hidrogênio, Oxigênio, Nitrogênio
Conforme os espectadores adentram o Teatro Juarez Machado, vozes ecoam pelo ambiente. Elas gritam, falam, sussurram. A dúvida é sempre a mesma: do que nós somos feitos? O ambiente, meticulosamente preparado, demonstra desde o início que os espectadores são parte do próprio espetáculo e dos próprios artistas – a imagem da platéia é filmada e projetada nas costas de três bailarinos. Os três, imóveis durante os minutos enquanto o público se acomoda, sugerem expectativa. Quem são essas pessoas? O que elas estão fazendo? O que elas farão?
E, num misto de indagações do público e do próprio espetáculo, é projetada no fundo do palco do teatro a receita para se fazer um ser humano, soma de sensações, emoções, defeitos e virtudes. O espetáculo segue e as perguntas continuam: do que nós somos feitos? Quem eu sou? Por fim, a resposta dos bailarinos é que nós somos o infinito, somos imaginação, somos vida.
Podemos ser o significado do nosso nome, se quisermos. Mas quem escreveu o dicionário dos nomes? Não podemos acreditar em tudo o que se diz sobre nós mesmos. O espetáculo diz que somos recicláveis. Sim, somos. Nós mudamos, aprendemos, podemos ensinar e sermos ensinados. Se não fizermos isso, não alteramos nossa essência e ela se apaga, aos poucos, como a luz que se esmaece ao fim de cada apresentação de dança. E o que sobra é só lixo, descartável e não-reciclável.
Trabalhamos por dinheiro, não por prazer. Estudamos por diploma, não por ânsia de conhecimento. É isso o que o sistema quer. É isso o que a apresentação do grupo da Escola do Teatro Bolshoi nos ensina. Não precisamos seguir o sistema, porque se isso acontece nos tornamos osso e carne no meio de um mundaréu de pessoas. E no final seremos pó.
Tudo nos é negado, censurado e roubado. E por que isso ocorre? Porque não há pessoas suficientes para dizer que isso é errado. Que nada nos deve ser negado, porque nós podemos. Que nada nos deve ser censurado, porque o mundo é livre. Que nada deve, nem pode, nos ser roubado, porque nada é realmente nosso.
Nós somos feitos de chuva, de luz, de terra, de lixo, de sol. Nós somos feitos do outro. Somos insignificantes perante a magnitude da galáxia, mas não podemos ser insignificantes para os outros, perante nossas vidas. Somos um emaranhado de sensações, nossas e dos outros, características que nos são adicionadas ao longo dos anos. Somos feitos de amor. Sem ele, não nascemos. Do que nós somos feitos? Cromossomos feitos, com seus valores e defeitos.
Por Maila Klegien